quinta-feira, abril 16, 2009

HISTÓRIAS II

(...Continuação)

"Mas Asdrúbal nem sempre fora assim. Pelos vinte e dois anos apaixonara-se por uma professora, recém-formada pelo Magistério Primário de Caldas da Rainha. Era uma morena elegante e alegre, olhos vivos e riso fácil. Asdrúbal nunca se aproximou ao ponto de chegar à fala. Mas seguia-a de longe. Arranjava maneira de passar pela Escola às quatro e meia da tarde quando ela saía.Todos os dias tomava o pequeno-almoço na pastelaria da esquina para a ver bocejar em frente ao galão com torradas, com uma suave olheira tão sensual. Como ele apreciava aqueles momentos de intimidade matinal. Imaginava uma mesa na marquise com vista para o jardim relvado, um centro de flores frescas e naturais a perfumarem um pequeno almoço tomado por ele, pela professora e por duas crianças louras, enquanto trocavam gestos de carinho e palavras de amor. A cena não era original. Vira-a na televisão a publicitar uma manteiga com pouco sal. Mas não importava. A cena era tão bonita, que bem poderia servir para si. No seu devaneio Asdrúbal apreciava a olheira da professora bem sabendo ter sido o causador da falta de descanso nocturno. E isso bastava para o estimular de novo. Asdrúbal, em cada manhã antecipava a sua felicidade futura, menosprezando pormenores como a cor do cabelo das ficcionadas crianças. O quadro geral é que importava. Naquela fase, queria lá saber de quem tinham herdado o louro do cabelo. Por isso, Asdrubal fazia tudo para ver a professora, numa fidelidade canina, só para alimentar os seus sonhos de felicidade. Nunca revelou aos amigos a sua calada paixão. Mas eles descobriram o destino dos olhares mortiços, o incómodo quando comentavam as pernas da nova professora. Tentaram ajudar, fazendo chegar à professora a informação. Ela inicialmente riu-se. Mas passou a enfrentar os olhares de Asdrubal, num convite ao cumprimento, à conversa. Mas Asdrúbal enrolava, enrolava. Nunca mais avançava. Numa ocasião, provocante, ela proferiu um abrangente bons-dias, como quem se dirige a todos os presentes. Asdrúbal sentiu que a frase era para si, percebeu que aquela era a sua oportunidade e tentou responder. Mas com a ansiedade a língua e os lábios secaram. Abriu a boca, mas não emitiu qualquer som. Corou, ainda mais envergonhado. À noite escrevia extensas cartas apaixonadas, delirando o seu amor, explicando a sua timidez, protestando a seriedade da sua intenção, garantindo as suas honestidade e capacidade de trabalho. Mas nunca tivera coragem para enviar as cartas. De manhã rasgava-as, como se a luz do dia revelasse o ridículo dos sentimentos. Os amigos insistiam com ele, davam-lhe conselhos. Garantiam a receptividade. Ele só tinha que avançar, caramba.
Combinaram que no Baile da Pinhata, Asdrúbal teria mesmo que se decidir. Nem que tivessem de o arrastar. Ele teria que convidar a professora para dançar e depois deixava-se a natureza seguir o seu curso. Num frenesim, todos colaboraram na preparação da operação. Como se fosse militar. Visitaram o salão de baile com antecedência, medindo os metros, levantando croquis, antecipando as prováveis localizações da professora, prevendo trajectos, configurando procedimentos. Para cada alternativa, planearam a colocação de um elemento para a necessária obstrução a algum espontâneo que se antecipasse com inconveniência a Asdrubal no convite à professora Cada um dos topos do salão mereceu um Plano alternativo que ia da A a D. Treinaram individual e colectivamente. Até escolheram os mais musculados para pegarem em Asdrubal pelos braços, no caso de ele manter as costumadas hesitações. Ou seja, ia ser a sério."
(Continua..)

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

"mandei-lhe uma carta...lá,lá,lalalá".E a malta gritou"Aí, Benjamim!".
ups!

11:06  
Blogger ruiruim said...

epa isto tá muito bom! venha mais

14:03  

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